Quando muito se fala e pouco se faz na gestão pública, a iniciativa privada passa a pautar integralmente a ação de governos e cidadãos.

É o que está ocorrendo no caso de nosso cada vez mais caótico trânsito. Dos índices aos mecanismos para fugir dos congestionamentos.

UM ÍNDICE PRIVADO DE CONGESTIONAMENTOS

A Tom Tom, empresa holandesa líder mundial em sistemas de localização automotivos lançou, em junho de 2014, o 1º Índice de Trânsito do Brasil.

O índice integra o programa Global de Trânsito promovido pela empresa, que já está na sua 4ª edição. O objetivo é avaliar a situação do trânsito em diversas cidades do mundo e propor soluções para minimizar o tráfego através de experiências positivas. Os dados são baseados nas informações coletadas dos últimos anos e analisa tanto vias locais quanto rodovias.

O índice é obtido pela comparação de tempos de percurso auferidos durante horários de pico com o mesmo percurso durante horas de fluxo livre num período determinado, obtendo-se uma porcentagem-padrão de lentidão para cada quadro analisado.

Por conta do estudo, os responsáveis estimam que os motoristas de todo o mundo gastam, em média, oito dias úteis por ano, retidos no trânsito.

O estudo aponta que, no mundo, os piores picos de tráfego ocorrem às quartas-feiras. No Brasil, entretanto, são as manhãs de segunda e as tardes de sexta-feira que lideram os períodos de pico.

Dentre as cidades do mundo com maiores problemas de trânsito, o Rio de Janeiro ocupa o 3º lugar e São Paulo o 5º. Essas cidades, no entanto, não lideram o índice nacional, como se verá, surpreendentemente, mais abaixo.

A classificação das dez principais cidades do mundo, por nível geral de congestionamento, no ano de 2013, foi a seguinte:

1º Moscou (Rússia) – 76%

2º Istanbul (Turquia) – 62%

3º Rio de Janeiro – 55%

4º Cidade do México (México) – 54%

5º São Paulo – 46%

6º Palermo (Itália) – 39%

7º Varsóvia (Polônia) – 39%

8º Roma (Itália) – 37%

9º Los Angeles (EUA) – 36%

10º Dublin (Irlanda) – 35%

No índice brasileiro, surpreendentemente, os maiores congestionamentos em horário de pico, relacionando as nove maiores capitais são os seguintes:

1º Recife – 60%

2º Salvador – 59%

3º Rio de Janeiro – 55%

4º Fortaleza – 48%

5º São Paulo – 46%

6º Belo Horizonte – 42%

7º Porto Alegre – 38%

8º Curitiba – 34%

9º Brasília – 27%

O gerente de vendas da TOM2 no Brasil, Júlio Quintela, comentou, durante o lançamento da publicação, que, “recentemente, foram feitas alterações nas vias para os eventos esportivos que o Brasil está prestes a receber, mas a tendência é que o tempo de deslocamento aumente, inclusive nos fins de semana, por causa de atrasos em torno de estádios.”

GOVERNOS INCOMPETENTES

As informações coletadas permitem às secretarias municipais de trânsito traçar planos de mobilidade urbana, visando diminuir os congestionamentos.

Porém, o que o estudo revela é justamente a ineficácia das medidas até o momento adotadas, pois os índices têm aumentado progressivamente.

A questão da mobilidade urbana é alvo de debates entre especialistas, governos e setores econômicos envolvidos na área.

Alternativas programáticas não faltam: rodízios rocambolescos, esdrúxulas faixas de trânsito exclusivo de ônibus (objetivando diminuir o número de veículos particulares em circulação, melhoria na qualidade e quantidade do transporte público), construção de ciclovias e incentivo ao uso da bicicleta para locomoção local, campanhas de respeito e de educação no trânsito, etc. No entanto, projetos de infraestrutura e engenharia civil, têm sido escassos, revelando profundo desinteresse dos governos em efetivamente investir e planejar.

A esse desinteresse soma-se o desestímulo institucional.

De fato, a dificuldade enfrentada por governantes que ousam rasgar um meio urbano com viadutos, túneis e avenidas ou obras estruturais de mobilidade urbana, como trens urbanos, metrôs e corredores segregados é diretamente proporcional à insensibilidade do Poder Judiciário na resolução dos conflitos socioambientais intrínsecos à iniciativa estruturante, ao descompromisso dos órgãos de fiscalização e controle da atividade pública para com a solução efetiva dos conflitos em benefício dos usuários contribuintes e à ação dos corruptos – estes, ávidos para que as dificuldades propiciadas pelos conflitos inconclusos se eternizem, para que vendam caro “facilidades de sempre”…

Em meio à incompetência, à burocracia e à corrupção, medidas paliativas, cosméticas e destinadas ao fracasso tornam-se meio para justificar estruturas burocráticas, funções e empregos.

Por conta disso, todos sofrem, e a saúde dos usuários do sistema de tráfego piora.


A SAÚDE E OS CONGESTIONAMENTOS

Em 2012, o Dr. Dirceu Rodrigues Alves Jr., especialista em medicina de tráfego, apresentou artigo sobre a repercussão dos congestionamentos no organismo e suas consequências para a saúde. Ele concluiu que a sensação de perda da liberdade sofrida pelo cidadão é capaz de levar a distúrbios de comportamento com consequências imprevisíveis.

As principais reações observadas em pessoas, por conta do congestionamento, são: taquicardia, hipertensão arterial, náuseas, sudorese, dores musculares e na coluna, irritabilidade e agressividade.

Além do prejuízo físico e emocional, o estresse no trânsito, acaba afetando o rendimento profissional, escolar e as relações interpessoais dos cidadãos, que sofrem diariamente com os congestionamentos no trânsito.

Algumas doenças psiquiátricas como o “Transtorno Explosivo Intermitente” (TEI), conhecido vulgarmente como “Pavio Curto”, “Sociopatias” e “Transtorno Obsessivo Compulsivo” (TOC), tendem a se manifestar de forma incontrolável num congestionamento ou acidente de trânsito. Os portadores delas são capazes de transformar seu desconforto em agressividade – vias de fato ou uso de armas não raro ocorrem.

A ECONOMIA DOS CONGESTIONAMENTOS

A Confederação Nacional da Indústria (CNI) fez um estudo do trânsito nas grandes cidades e constatou que os problemas enfrentados na locomoção afeta a produtividade no trabalho e no estudo.

O custo benefício do transporte torna-se extremamente negativo. Os problemas de saúde pressionam o sistema público de atendimento e aumentam gastos particulares com tratamento médico e remédios.

Deixa-se de faturar R$ 5,2 bilhões por ano na cidade de São Paulo em decorrência do trânsito que não anda.

Há sensível redução de negócios por conta da impossibilidade de atendimento aos horários, operações comerciais e financeiras acabam não ocorrendo nos prazos previstos.

Os caminhões retidos nos engarrafamentos têm custo maior porque gastam mais, rodam menos e fazem, portanto, menos entregas.  A deseconomia afeta toda a cadeia logística de abastecimento. Os atrasos nesse setor têm efeito sinérgico, pois ocasionam aumento do número de caminhões nas ruas – por conta do desacerto nas rotas de carga e da necessidade de cobrir os atrasos, o que acarreta mais trânsito e, por conseguinte mais deseconomia.

O aumento do consumo dos combustíveis provoca aumento de custos e de preços.

MEIO AMBIENTE E CONGESTIONAMENTOS

Os veículos são responsáveis por 97% das emissões de monóxido de carbono, 97% de hidrocarbonetos, 96% de óxidos de nitrogênio, 40% de material particulado e 35% de dióxido de enxofre, na atmosfera das cidades.

Estudo feito pela CETESB estima que para cada redução de 12,5 km/h na velocidade média dos automóveis em uma corrente de tráfego, ocorre um aumento médio de 20% no consumo de combustível, um acréscimo de 25% nas emissões de monóxido de carbono e de 20% nas de hidrocarbonetos.

Há incremento também nas emissões de material particulado, proveniente não apenas da queima do combustível como também do desgaste dos componentes dos freios, dos pneus e do atrito com a superfície da pista. O movimento intenso dos veículos provoca a suspensão de partículas presentes nas superfícies das vias, altamente prejudiciais à saúde.

Moradores e atividades, pedestres e usuários do transporte público, são atingidos igualmente pelos efeitos do trânsito caótico e pelo estresse.

PARA SAIR DO SUFOCO, UTILITÁRIOS DE USO PESSOAL

Como o mar de congestionamentos é diretamente conectado ao deserto de líderes, gestores públicos e técnicos na engenharia de tráfego e logística, os usuários do sistema acabam recorrendo o uso dos sistemas individuais de informação, para prevenir e  reduzir o stress no trânsito.

Com o objetivo de ajudar motoristas e usuários de transporte público a evitar ou sair dos congestionamentos, surgiram aplicativos para uso em celulares, tablets e computadores pessoais.  O objetivo é acalmar os ânimos e apresentar alternativas de rotas, para fugir do trânsito. São eles:

Moovit – O app informa rotas e horários de ônibus para cada ponto, além de mostrar rotas de metrô e trem. A plataforma também permite que os usuários alimentem a rede com informações sobre atrasos e lotação, de forma que outras pessoas podem receber alertas pelo celular;

Buus – Ferramenta colaborativa que informa a localização e as condições de embarque do transporte coletivo. Através dos GPS nos ônibus da cidade, o aplicativo detecta onde eles estão e assim é possível mensurar em quanto tempo ele chegará. Por enquanto, o aplicativo está disponível apenas no Rio de Janeiro;

Waze – É uma espécie de rede social com GPS que permite a troca de informações, em tempo real, sobre congestionamentos, acidentes e até blitz policial. Ele funciona em qualquer cidade onde existam usuários com o aplicativo;

Trânsito SP 2.0 – Elaborado com informações da CET, Metrô e Via Quarto, o app mostra o trânsito nas áreas monitoradas por região, apresenta porcentagens dos congestionamentos em relação ao total de vias, além de permitir a consulta por corredores e eixos. Também mostra em tempo real as ocorrências, como acidentes;

Olho na Estrada – Aplicativo que mostra imagens das câmeras da concessionárias das estradas nos estados de São Paulo e Paraná. É ideal para quem quer saber qual a situação de determinada rodovia, antes de sair de casa;

Fale Trânsito – Por voz, o usuário pode consultar as informações de trânsito de ruas e estradas de diversas cidades. Basta falar em voz alta o nome ou partes do nome de determinada via que o app lê em voz alta as condições atuais de tráfego.

A conclusão que se pode ter, portanto,  da proliferação de aplicativos para uso individual em dispositivos eletrônicos, é a obsolescência da gestão pública para a solução dos congestionamentos que afetam profundamente os usuários.

Fontes:

http://www.nossasaopaulo.org.br/noticias/no-brasil-o-transito-de-sao-paulo-esta-em-quinto-lugar-o-pior-e-o-do-recife

http://www.transportabrasil.com.br/2012/11/congestionamento-e-lentidao-no-transito-repercussao-na-saude-e-no-comportamento/

http://caranddriverbrasil.uol.com.br/garagem-cd/seu-bolso/recife-lidera-transito-no-brasil-diz-estudo/7964

http://ciclovivo.com.br/noticia/6-aplicativos-que-ajudam-a-escapar-do-transito

http://www.ambientelegal.com.br/papo-reto-mobilidade-urbana/