Pedro Corrêa
Consultor em programas de segurança no trânsito

É fácil mentir com estatísticas, mas é difícil dizer a verdade sem elas”. Esta frase, do matemático sueco Andrejs Dunkels, me foi dita há quase 20 anos por um executivo de multinacional ligado à segurança no trânsito. Até então, os mais espirituosos definiam estatística como “um mecanismo pelo qual você tortura os números até confessarem o que você quer arrancar deles”. A frase de Dunkels nunca mais me saiu da minha cabeça.

Com base nesta afirmação, fico imaginando o quanto já foi mentido no Brasil por falta de estatísticas confiáveis. Falo apenas de segurança no trânsito. Quando comecei a trabalhar na área, dizia-se que o trânsito matava 50 mil pessoas ao ano, que era um Vietnam por ano, para comparar com o número de soldados americanos mortos nos campos de guerra vietnamitas. Quando se pedia comprovação, as respostas eram de que “não havia dados, mas estimativas”.

Faz mais de 30 anos que atuo no trânsito e durante este tempo todo ouço falar na montagem de um sistema confiável de estatísticas que, enfim, possa oferecer dados críveis, capazes de gerar políticas públicas de qualidade. Isto não é apenas um sonho legítimo mas uma imperiosa necessidade nacional porque, se queremos ser um país sério, temos de ter seriedade na produção de dados e informações.

Eis que agora o País tem uma nova e grande chance de fazer deste sonho, uma realidade. O nascimento da Senatran, a Secretaria Nacional de Trânsito, que substituiu o Denatran, traz a esperança de fazer funcionar o Pnatrans, o tão aguardado programa de redução de vítimas no trânsito que, por sua vez, vai favorecer o surgimento do Renaest, o Registro Nacional de Acidentes e Estatísticas de Trânsito. Para quem acompanha a trôpega caminhada do trânsito brasileiro ao longo da história, é muito sonho para tão pouco tempo.

Na realidade, Senatran, Pnatrans e Renaest são sonhos factíveis pois não nos falta conhecimento para realizá-los. Nesta sua nova aventura em direção ao futuro, a Senatran apoia seus projetos na experiência e na capacidade de uma das melhores empresas de consultoria de negócios do País, a Falconi, de Belo Horizonte, cuja folha de serviços ao Brasil está fartamente demonstrada. Conheci o trabalho dela através do programa de mobilidade segura de Brasília, cujos resultados falam por si próprios, mas conheço também outros projetos bem sucedidos. O problema é que há muitas variáveis nestes projetos que escapam da boa vontade e mesmo da determinação da Senatran para colocar em prática tudo aquilo que já está no papel.

Neste artigo quero abordar apenas o projeto Renaest que representa a esperança de (boa) parte da comunidade de segurança no trânsito de, enfim, saber qual é a realidade do setor e que rumos pode tomar no futuro. Li os dois manuais produzidos como “faróis” do Renaest e, claramente, pode-se dizer que são bem consistentes.

Para propor o Renaest, a Falconi radiografou detalhadamente o setor estatístico do trânsito brasileiro, notadamente analisando as estruturas dos Detrans em cada estado. São eles que, pela nova Lei, ficarão com a carga de abastecer o Renaest com dados que, por sua vez, serão produzidos pelos municípios brasileiros. Isto significa que a Senatran terá suas pontes com os estados através dos Detrans, mas não com os municípios, que é onde o trânsito acontece e onde ocorrem os sinistros, as mortes, sequelas, além das demais perdas materiais.

Como a Senatran não tem ascendência organizacional sobre os Detrans que, por sua vez, não “mandam” nos municípios, esta situação coloca em cheque a efetividade do Renaest. Na verdade, a inexistência de uma hierarquia formal entre Senatran-detrans-municípios, faz com que o suprimento de dados estatísticos fique na dependência do grau de eficiência das cidades. É natural que prefeituras menos estruturadas, das 5.700 que temos pelo Brasil, terão dificuldades em responder corretamente aos quesitos do novo formulário de acidentes de trânsito do Renaest. Esta é a espinha dorsal do sistema pois é a primeira fonte de informação do projeto.

Sei que alguns detrans estarão se apoiando na estrutura operacional da Polícia Militar do seu estado pois é a instituição que possui representação em cada município, notadamente nos menores, onde as informações sobre sinistros de trânsito são mais complexas. Nos municípios maiores, e principalmente naqueles onde já funciona o Programa Vida no Trânsito, certamente estes procedimentos já não serão tão difíceis. Contudo, ver esta máquina funcionar adequadamente em cada cidade do país não deixa de ser algo desafiador. Por isso tenho minhas razões de ceticismo com relação ao futuro imediato do Renaest.

É bom lembrar que o Datasus mantém o seu banco de dados que, por sinal, melhorou bastante nos últimos anos, utilizando as secretarias municipais de saúde como fontes de dados. Tem espaço para aperfeiçoar bastante seu sistema mas principalmente precisa facilitar muito mais o acesso aos seus dados no Datasus. Eles estão disponíveis ao público, mas para alguém acessá-los, precisa conhecer o sistema, o que não é para muitos. Não creio que seja por isto mas, na realidade, o brasileiro nunca foi muito ligado em estatísticas, mesmo nos tempos em que dispúnhamos de mais fontes.

Torço para que o Renaest consiga acertar seu sistema operacional de maneira que a triangulação Senatran-detrans-municípios funcione a contento e possa cumprir seu importante papel dentro do sistema de trânsito do Brasil.

jpedro@jpccommunication.com.br